Reseha - A História da Loucura - Michel Foucault



          Toda a história dos inícios da psiquiatria moderna se revela falseada por uma ilusão retroativa segundo a qual a loucura já estava dada – ainda que de maneira imperceptível – na natureza. Loucura não é algo da “natureza” ou uma “doença”, mas um “fato de cultura”. A história da loucura, em suma, é a história da progressiva medicalização ocidental.

Na Idade Média o Louco era um “Visionário”. Na Renascimento, o Louco era “Outra Razão”; É louco porque a sociedade o é. Saber fechado, esotérico, que produz e manifesta a realidade de outro mundo, e nos entrega o homem essencial, que em sua natureza íntima é furor e paixão. Ex: as obras; Dom Quixote e O Elogio da Loucura. Na Idade Clássica, inicia com Descartes, fundador da filosofia moderna; identificou a loucura como algo que nos leva ao erro. No século XIX, o Louco passa a ser visto como “doente mental”. A partir desse momento, os loucos foram liberados do encarceramento e colocados sob cuidados médicos. Ao invés de correntes de ferro, passaram a ser medicados. Com a psicanálise, os loucos poderiam falar para os psiquiatras. O “louco” torna-se, ainda, um objeto de estudo, ou seja, distancia-se o “normal”, do “doente mental”, e torna-se o último objeto de um saber; aqui começa o mito do pseudo homem normal e do patológico. A loucura continua a ser vigiada e confinada pela razão; o médico, onipotente e onipresente é a autoridade que atua sobre o dito louco, representam o poder da razão de confinar a loucura.

No final da Idade Média, inicia-se a praga da lepra; o leprosário é logo povoado por incuráveis e loucos. As doenças venéreas começam a se multiplicar e os mesmo são internados com os leprosários, os desempregados, os criminosos e os desatinados. A loucura em uma relação entre consciência e experiência mística, era adquirida eles poderiam até ter acesso a verdades divinas.  Porém, o medievo interliga-se com outras épocas ao excluir os loucos da sociedade, o que difere é o motivo, que desta vez é para separar o sagrado das experiências terrenas.

“Este saber, tão inacessível e temível, o Louco o detém em sua parvoíce inocente. Enquanto o homem racional e sábio só percebe desse saber algumas figuras fragmentárias – e por isso mesmo mais inquietantes -, o Louco o carrega inteiro em uma esfera intacta: essa bola de cristal, que para todos está vazia, a seus olhos está cheia de um saber invisível”. (FOUCAULT, 2014, p. 21).

Foucault se lembra da antiga alegoria “A Nau dos loucos” usada na cultura ocidental em suas literaturas e pinturas. O âmago desta autocrítica, esta em que, ela vem descrevendo o mundo e a sociedade como uma espécie de “Nau” onde os passageiros ditos perturbados não sabem nem se preocupam para onde estão sendo levados. Em composições literárias e artísticas dos séculos XV e XVI, o motivo cultural da “Nau dos loucos” era uma analogia à arca de salvação “Cristianismo”. A “Nau dos loucos” era uma espécie de símbolo da consciência viva do pecado e do mal na mentalidade medieval e nas paisagens imaginativas da Renascença.

“A Nau dos Loucos atravessa uma paisagem de delícias onde tudo se oferece ao desejo, uma espécie de Paraíso renovado, uma vez que nela o homem não mais conhece nem o sofrimento nem a necessidade”. (FOUCAULT, 2014, p. 21).

Na Idade Média, não havia separação entre o sofrimento mental e o físico, mas o principal foco era a lepra. E como a Igreja Católica possuía uma suma importância em relação à sociedade, a lepra era repugnada por todos, pois ela era considerada um castigo divino. Tendo métodos radicais em busca da “salvação”, praticando o exorcismo ou tendo seus corpos queimados. Havia nas cidades medievais uma delimitação nítida dos espaços em que eram excluídos aqueles que não se adaptaram às normas da sociedade. Fora dos seus muros, os loucos, os leprosos. Dentro, os razoáveis, os civilizados.

“O abandono é, para ele, a salvação; sua exclusão oferece-lhe uma outra forma de comunhão”. (FOUCAULT, 2014, p. 6).

Na Modernidade, a loucura teve um novo tratamento, a terapia, que era chamada de “tratamento moral da insanidade”. Um dos métodos consista no afastamento do sujeito perante o meio em que ele obtém sua loucura. Um dos pontos importantes desta época são as crises econômicas europeias em que os hospitais psiquiátricos oferecem mão de obra barata, porém, existia um sentido duplo em que visava não apenas a produção, mas principalmente repressão. A loucura não era algo mental, mas também consistia na imoralidade. Sendo a concepção moderna de loucos: são animais de uma ferocidade natural, que precisa ser fisicamente revertida, não tendo mais relação com a humanidade, mas sim com a animalidade, logo mais esse lado animal passa a ser a felicidade natural que era reprimida pela sociedade. As casas de internação viram asilos, mas ainda eram trabalhos alguns métodos de internação e a loucura recebe sinônimo de doença. Representando a realização de um projeto que já existia há muito tempo: a dominação e intimidação social e política.

“A internação é uma criação institucional própria ao século XVII. (...) o momento em que a loucura é percebida no horizonte social da pobreza, da incapacidade para o trabalho, da impossibilidade de integrar-se no grupo; o momento em que começa a inserir-se no texto dos problemas da cidade. As novas significações atribuídas a pobreza, a importância dada à obrigação do trabalho e todos os valores éticos a eles ligados determinam a experiência que se faz da loucura e modificam-lhe o sentido”. (FOUCAULT, 2014, p. 78).

Para Descartes o principio da loucura envereda no status de uma Desrazão; longínqua esta qualquer juízo falso ou verdadeiro, momento em que a loucura adentra em uma experiência crítica ela esta se coloca fora do lugar da razão, ela é o outro da razão, ou seja, a desrazão. Se a loucura tem o mesmo estatuto da razão, ela passa a ser o grande medo da desordem, e a solução é a grande internação na França do século XVII. A loucura a partir de Descartes passa a ter um estatuto moral, passa a ser patológico, entra no viés do desatino, ou seja, fora da razão. A desrazão da loucura está entre o significado ético e moral, o estatuto indeterminado do louco era tudo o que extrapolasse a ordem da razão, o que fugisse dos padrões, e o internamento dos alienados é a estrutura mais visível na experiência clássica da loucura. Na Idade Média o louco era a causa de uma vontade divina; a loucura na modernidade adentra não mais por esta mesma vontade divina, ela ganha o perfil de razão, passando a ter um significado moral.

“No caminho da duvida, Descartes encontra a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro”. (FOUCAULT, 2014, p. 45). “A duvida de Descartes desfaz os encantos dos sentidos, atravessa as paisagens do sonho, sempre guiada pela luz das coisas verdadeiras; mas ele bane a loucura em nome daquele que duvida, e que não pode desatinar mais do que não pode pensar ou ser”. (FOUCAULT, 2014, p. 47).

Na Idade Média a loucura ainda tinha um sentido de lugar, um significado cosmológico ligado ao sagrado, na Renascença com a Nau dos Loucos, já não existe mais o lugar da loucura, o não-lugar físico que a loucura adquire como significado é o caráter de exclusão, propriedade e significação dessa propriedade, privação de lugar e espaço para o indivíduo, o não-lugar do louco cria-se o lugar do internamento. As práticas de intervenção sofrem alguns deslocamentos de significados; no século XVII a loucura passa a ter um sentido moral, a loucura como transbordamento do não dito, já no século XVIII deixa de ter um aspecto moral e passa a ser de cunho médico. O hospício moderno surge com o advento da internação do Marquês de Sade, onde o diagnóstico não é de loucura.  O problema de Sade não é insanidade, mas sodomia, em detrimento disto, ele vai à prisão e não para o manicômio, este paradigma resignifica o próprio conceito de loucura na modernidade. 

“O século XVII descobriu-a na perda da vontade:  possibilidade inteiramente negativa na qual a única coisa em questão era essa faculdade de desertar e de atenção no homem, que não é da natureza, mas da liberdade. O fim do século XVIII põe-se a identificar a possibilidade da loucura com a constituição de um meio: a loucura é a natureza perdida, é o sensível desnorteado, o extravio do desejo, o tempo despojado de suas medidas; é a imediatez perdida do infinito das mediações”. (FOUCAULT, 2014, p. 370).

A partir dos séculos XVII ao XIX, há uma mudança conceitual tendo-se o significado médico; inicia-se aqui a percepção que alguns loucos podiam ser tratados e acompanhados através de tratamentos médicos e o controle era manter o louco distante de locais insalubres. A significação médica e moral começa no mesmo período e neste mesmo período práticas de internação institucionais; aqui nasce o hospital geral na França. Foucault esta preocupado em desvelar o porquê do louco passa a ser um objeto olvidado no manicômio.  Do século XIX a contemporaneidade, a loucura é objeto de análise, inicia-se o positivismo da medicina e de toda a ciência como objeto de estudo e pesquisa. Os significados e as representações mudam, mas as práticas continuam as mesmas, internamento e exclusão. Essas práticas já estão presentes na origem da história da loucura, desde o século XIII, seja nos mosteiros, nas Naus, nos leprosários, etc. A psiquiatria só surge a partir do inicio do século XIX com Pinel até Charcot, antes, os médicos que visitavam os hospitais tinham o objetivo de controlar as pestes e doenças que aconteciam dentro das casas de internação, mas, não há ainda a questão da loucura como objeto de estudo da medicina. No século XVIII a medicina está em pleno desenvolvimento, Foucault desdobra uma relação entre significado moral e sentido terapêutico, mas o sentido terapêutico só se instaura do século XVIII para o século XIX. O médico diagnostica a capacidade do paciente determinando assim se o mesmo deve ou não viver em sociedade, o médico esta munido do estatuto jurídico; a análise feita do indivíduo pelo caráter moral torna-se mais relevante que a questão da saúde. Para Foucault o comportamento humano é construído, e não uma questão divina e imutável, tudo é uma construção histórica e cultural.

“A loucura, para o século XIX, terá um sentido inteiramente diferente: estará, por sua natureza e em tudo o que a opõe à natureza, bem perto da história”. (FOUCAULT, 2014, p. 374). “(...) primeiro: porque a loucura em sua aceleração constante forma como que uma derivada da história; e, a seguir, porque suas formas são determinadas pelas próprias formas do devir. Relativa ao tempo e essencial à temporalidade do homem”. (FOUCAULT, 2014, p. 375).

A loucura apresenta-se em ordem de norma social, a existência de uma loucura pré-existente é nula, o que existe são comportamentos desviados da normatividade burguesa, neste arcabouço a loucura é uma construção social, Foucault desmistifica a psiquiatria como a ciência da loucura, ele mostra como a loucura passou a ser objeto de análise e pesquisa só a partir do século XIX. Foucault relata que a psicanálise fala de uma estrutura psíquica pré-social; Foucault discursa que o social é anterior a estrutura psíquica, ele vai de encontro a Freud. Loucura é desatino da razão, Foucault sustenta que a sociedade precede a essa estruturação psíquica, é a cultura que forma e modela o sujeito. Essas práticas de domínio ético da insanidade vão produzir normas e descrever o domínio ético do internamento. A institucionalização do domínio ético cria o domínio da insanidade.

Os três elementos básicos da experiência Clássica da loucura são: Alienação da razão; distanciamento da loucura e do louco pelo internamento; e sujeição como forma de controle. A experiência moral do desatino na Idade Clássica é o solo, a base para entendimento da ciência, e só a partir do distanciamento e do encarceramento da loucura nos muros da razão, para permitir começar a entender e estudá-la como objeto de pesquisa científica. Para Foucault só existe o louco, a figura da loucura é criada no século XVII pela norma social. "Na verdade esse homem normal é uma criação". (FOUCAULT, 2014, p. 132). A insanidade no século XVII acaba ocupando o domínio moral, a partir desse domínio vai abrir as portas para os futuros estudos da psicologia, o que se passa na psique, na alma humana; da psiquiatria, do corpo doente, a loucura como patologia; e pela psicanálise, uma arqueologia do inconsciente (que iniciam a partir do século XIX). "Quando o século XIX decidir fazer com que o homem desatinado passe para o hospital, e quando ao mesmo tempo fizer do internamentonum ato terapêutico que visa a curar um doente, fa-lo-á através de um golpe de força que reduz a uma unidade confusa, mas para nós difícil de deslindar, esses temas diversos da alienação e esses múltiplos rostos da loucura, aos quais o racionalismo clássico sempre havia permitido a possibilidade de aparecer". (FOUCAULT, 2014, p. 134).

Dessa forma, para Pinel e Bichat, o internamento era o melhor meio de garantir a segurança pessoal dos loucos e sua família, ao libertá-los de influências externas. Lugar de vigilância e de trabalho como principal meio de cura. É o trabalho que dignifica o homem e transforma o alienado em um ser útil e dócil. Pinel sustentado suas ideias no tripé isolar/conhecer/tratar, onde o hospital representa o principal espaço do saber-poder médico. 


Referência
FOUCAULT. M. História da Loucura na Idade Clássica, Perspectiva, 10ª edição, 2014.


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