Resumo - Gaston Bachelard - Epistemologia

Se queremos avaliar as dificuldades da formação do espírito científico, não será bom primeiro examinar os espíritos confusos, a fim de delinear os limites entre o erro e a verdade?” (Bachelard, p. 112, 1996).

A filosofia de Bachelard é não-positivista e não-neopositivista¹; a influência de sua filosofia manteve-se ao longo dos anos e suas ideias, como “rupturas epistemológicas” ou de “obstáculos epistemológicos”, e sobretudo sua consideração da historia da ciência como instrumento primário na análise da racionalidade, se revelaram, em nossos dias, sempre mais importantes.
O filosofo - deve ser contemporâneo da ciência de seu tempo; e isso porque a filosofia sempre esta em atraso de uma mutação em relação ao saber cientifico, com a consequência de que a ciência não tem a filosofia que merece. E precisa entrar de fato dentro da ciência para entender que “não é a razão filosófica que ensina a ciência, mas que é a ciência que instrui a razão"; e para compreender - diversamente dos neopositivistas - que "um pouco de metafísica nos afasta da natureza, muita metafísica dela nos aproxima".
Em a “Filosofia do Não”, Bachelard escreve: “A aritmética não se baseia na razão². É a doutrina da razão que se baseia na aritmética elementar. Antes de saber contar, eu não sabia de modo algum o que era a razão”.
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¹O neopositivismo enfatizam a experiência, o que passa pela verificação e não se preocupam com o abstrato.
² Referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação. A razão pode ser entendida em dois significados subordinados: A) como faculdade orientadora geral; B) como procedimento específico de conhecimento. (Dicionário de Filosofia. Nicola ABBAGNANO, M. F., 2007).
E, diversamente ainda dos neopositivistas, Bachelard chama a atenção para a história da ciência; uma atenção que o faz dizer em - “A formação do espírito científico” - que se conhece sempre contra um conhecimento anterior ("não ha verdade sem erro retificado"), que a pesquisa avança por meio de sucessivas rupturas epistemológicas, mesmo se tais rupturas efetivas ou cortes não são passos tão fáceis, uma vez que o pesquisador choca-se frequentemente com aqueles que Bachelard chama de obstáculos epistemológicos (por exemplo, o obstáculo animista: "a palavra vida é uma palavra mágica. Uma palavra valorizada").
O espírito científico proíbe que tenhamos opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas. E digam o que disserem, na vida científica os problemas não se formulam de modo espontâneo. É justamente esse sentido de problema que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Para o espírito científico, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído. 
Entre o conhecimento comum e o conhecimento científico a ruptura nos parece tão nítida que estes dois tipos de conhecimento não poderiam ter a mesma filosofia.
O empirismo é a filosofia que convém ao conhecimento comum. O empirismo encontra aí sua raiz, suas provas, seu desenvolvimento.
O conhecimento científico é solidário com o racionalismo e, quer se queira ou não, o racionalismo está ligado à ciência, o racionalismo reclama fins científicos. Pela atividade científica, o racionalismo conhece uma atividade dialética que prescreve uma extensão constante dos métodos.
O racionalismo aplicado
O racionalismo bachelardiano tem um sentido muito próprio que é a preocupação constante com a aplicação. O "racionalismo aplicado", que é uma marca fundamental do "novo espírito científico", atua na dialética entre a experiência e a teoria, o que significa a dupla determinação do espírito sobre o objeto e deste sobre a experiência do cientista. "Impõe-se hoje situar-se no centro em que o espírito cognoscente é determinado pelo objeto preciso do seu conhecimento e onde, em contrapartida, ele determina com mais rigor sua experiência“.
O problema da criação científica
Fenomenotécnica: Bachelard, ao afirmar que “nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído”, ele diz mais do que uma afirmação da invenção propriamente científica, porque, no limite, para isto “encontra-se o real como um caso particular do possível”. Quando Bachelard diz da invenção científica, ele não diz que o cientista tenta compreender, descrever ou interpretar o real dado no mundo – aquilo que existe aí, anteriormente ao nosso pensamento. Não. Ele quer dizer que as teorias contemporâneas a ele criam um “real” inexistente até então, pois o “fenômeno científico é verdadeiramente configurado, reúne um complexo de experiências que não se encontram efetivamente configuradas na natureza”. O cientista criaria algo possível, fazendo hipóteses e buscando verifica-las a posteriori, experimentalmente. Dirá assim de uma abertura da razão diante das “lições” que podemos tomar das ciências. Citando o filósofo alemão Nietzsche: só se conhece contra ou apesar de”. (Foucault, 1988).

As “rupturas epistemológicas”
“Não existe conhecimento e nem verdade sem erro retificado”.
Nesse caminho, seria forçoso aceitar, para a epistemologia, o postulado de que o objeto não pode ser designado com um objetivo imediato, pois é preciso aceitar uma verdadeira ruptura entre o conhecimento sensível e o conhecimento científico, sem pragmatismo e realismo imediato.
Os pontos fundamentais de seu pensamento podem ser reduzidos a quatro:
   1) o filósofo deve ser "contemporâneo" a ciência de seu próprio tempo;
   2) tanto o empirismo de tradição baconiana como o racionalismo idealista descartiano são incapazes de dar conta da pratica cientifica real e efetiva;
   3) a ciência é um evento essencialmente histórico;
   4) a ciência possui um "inevitável caráter social".

Obstáculos epistemológicos
O obstáculo epistemológico é uma ideia que impede e bloqueia outras ideias: hábitos intelectuais cristalizados, a inércia que faz estagnar as culturas, teorias cientificas ensinadas como dogmas, os dogmas ideológicos que dominam as diversas ciências - eis alguns obstáculos epistemológicos:
a) O primeiro obstáculo a superar é o de derrubar a opinião: "A opinião, por direito, esta sempre errada. A opinião pensa mal, não pensa, traduz necessidades por conhecimentos. Decifrando os objetos segundo sua utilidade, impede-se de conhecimentos. Não se pode basear nada na opinião: antes de mais nada, é preciso destruí-la".
b) Outro obstáculo é a falta de genuíno sentido dos problemas, sentido que se perde quando a pesquisa se encerra na casca dos conhecimentos dados como adquiridos e não mais problematizados. Mediante o uso, diz Bachelard, as ideias se valorizam indevidamente. E esse é um verdadeiro fator de inércia para o espírito. Por vezes, ocorre que uma ideia dominante polariza o espírito em sua totalidade. "Ha cerca de vinte anos, um epistemólogo irreverente dizia que os grandes homens são uteis para a ciência na primeira metade de sua vida, e nocivos na segunda metade".

Obstáculos importantes e difíceis de remover são:
c) o obstáculo da experiência primeira, ou seja, da experiência que pretende se situar além da critica;
d) aquele que pode ser chamado obstáculo realista, e que consiste na sedução da ideia de substancia;
e) por fim, aquele que se pode chamar de obstáculo animista ("a palavra vida é palavra mágica. É palavra valorizada").
Conclusão
Diante dessas realidades constituídas pelos obstáculos epistemológicos, Bachelard propõe uma psicanálise do conhecimento objetivo, voltada para a identificação e para a remoção dos obstáculos que bloqueiam o desenvolvimento do espírito cientifico. Tal catarse torna-se absolutamente necessária se quisermos tornar possível o progresso da ciência, já que se conhece sempre contra um conhecimento anterior.

Referências
G. Reale - D. Antiseri. Historia da filosofia v. 7, São Paulo, Ed. Paulus, 2006.
G. Reale - D. Antiseri. Historia da filosofia v. II, São Paulo, Ed. Paulus, 2007.
Assis Saes S. F. Percepção e imaginação, São Paulo, Ed. M. Fontes, 2010.
Bachelard. G. Novo espírito científico, Editora: Tempo brasileiro 2000.
____________. A Filosofia do Não: Filosofia do novo espírito científico, Editorial Presença, 1991.
____________. A formação do espírito científico :Contribuição para uma psicanálise do  conhecimento, Editora: Contraponto, 1996.
____________ . A experiência do espaço na física contemporânea, Editora: Contraponto, 2010.

FOUCAULT. Michel. Nietzsche, a genealogia e a história, In: Microfísica do Poder, Edições Graal, 1988.

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