Transvaloração dos valores - perspectiva nietzscheana
INTRODUÇÃO
“Não
sou de modo algum, por exemplo, um espantalho, um monstro moral – sou inclusive
por natureza a antítese da espécie de homem que, até o presente, foi venerada
como virtuosa. Dito entre nós parece-me que justamente é para mim questão de
honra. Sou um discípulo de Dionísio, preferiria ser um sátiro que um santo”.
(Nietzsche, Prólogo 2, p. 15-6, Ecce homo).
A tradição filosófica veio
no percurso de sua historia desenvolvendo um pensamento remetido ao puro
racionalismo, colocando o sujeito como o centro e o meio do seu “eu”, alter ego (MARTINS, 2006, p.317).
O homem é um ser histórico e
social, que necessita de uma relação amistosa com o outro para uma
possibilidade de interação, integração e vivenciamento em uma sociedade repleta
de artifícios, caricaturas, simulações e dissimulações individuais e coletivas.
Nesta perspectiva se
instaura uma cultura onde os homens dão significados às coisas da natureza e às
suas relações, criando regras e normas para guiar suas ações em uma comunidade.
É neste contexto que a moral é instaurada como condição de gerir os indivíduos
em grupos, pensando e agindo dentro da mesma perspectiva. Os hábitos são
implantados e na repetição dos mesmos são apreendidos inconscientemente e levam
todos a praticar ações em tais situações habituais tornando-se um costume. Em
Humano, demasiado humano, Nietzsche escreve:
Uma importante
variedade do prazer e, com isso, fonte da moralidade, provém do hábito. O
habitual é feito mais facilmente, melhor, portanto, com mais agrado, sente-se
nisso um prazer e dabate-se por experiência que o habitual deu bom resultado,
que tem, portanto, uma utilidade; um costume com o qual se pode viver está
provado que é salutares proveitosas, ao contrário de todas as tentativas novas,
ainda não comprovadas. O costume é, por conseguinte, a união do agradável e do
útil; além disso, não exige nenhuma reflexão. Assim que o homem pode exercer
coação, a exerce para conservar e propagar seus costumes, pois para ele são a
sabedoria garantida.
De
igual modo, uma comunidade de indivíduos obriga cada elemento isolado ao mesmo
costume. Esta é uma conclusão errada: porque alguém se sente bem com um costume,
pelo menos, porque por intermédio do mesmo assegura sua existência, então esse
costume é necessário, pois passa por ser a única possibilidade de alguém
conseguir se sentir bem; o bem-estar da vida parece provir exclusivamente dele.
Esta concepção do habitual como condição de estância é aplicada até nos menores
detalhes do costume: como a compreensão da verdadeira causalidade é muito
reduzida entre os povos e as civilizações de nível menos elevado, aspira-se com
um temor supersticioso para que tudo continue a seguir o mesmo passo; mesmo
quando o costume é difícil, austero, oneroso, é conservado em vista de sua
utilidade superior aparente.
Não se sabe que o
mesmo grau de bem-estar também pode existir com outros costumes e que até é
possível atingir graus mais elevados. Mas aquilo que se percebe bem é que todos
os costumes, até os mais austeros, se tornam com o tempo mais agradáveis e mais
suaves e que até o modo de vida mais severo pode se tornar um hábito e,
portanto, um prazer. (NIETZSCHE,
2008, p. 96)
Nietzsche faz uma critica
sobre a forma de vivenciar a moral desta maneira; uma moral não refletida leva
o sujeito a sucumbir e exaurir ao fracasso, pois, o mesmo não ultrapassa esta
possibilidade de transvalorar estes hábitos inconscientes e continua na mediocridade.
Deve-se decidir e julgar quais os valores morais são necessários para guiar
cada ação. Avaliar o que é moral ou imoral, isto é um exercício de uma reflexão
ética. Transvaloração dos valores é:
Transvaloração
dos valores: significa uma troca do valor e dos valores originais, é dizer, uma
troca do sentido entre o “bem” ou “mal”, de acordo com um determinado modo de
valorizar a vida (ativo ou reativo).
História da transvaloração moral (“Genealogia
da moral”) Platonismo-judaísmo-cristianismo: se
inverteram as origens dos valores da vida (simbolizados na tensão entre
Apolo/Dionísio), por valores da decadência segundo o seguinte esquema:
Moral originaria: o referencial Moral decadente: o referencial da
valorização para a valorização é a energia vital os conceitos de
culpa e pecado
BOM= forte,
feliz Ativo
MAL= pecador,
impuro
RUIM= fraco,
enfermo Reativo BOM= piedoso, dócil
Causa da transvaloração: o ressentimento e a má consciência do
sacerdote por sua debilidade diante da vida. É Sublinhado este defeito
ou animação em um desejo de transcendência e uma entrega a Deus: a vida
ascética como forma de autotortura, de redenção e de culpa.
Levantada essa problemática
adentra-se no campo ético. Onde a ética tem como objetivo a reflexão dos valores
morais. Onde esses valores são históricos e mutáveis, onde cada cultura tem os
seus próprios valores morais num determinado tempo histórico.
AXIOLOGIA
E EDUCAÇÃO
As
avaliações dos comportamentos individuais e coletivos geram juízos de valor: O
que é bom ou mau? O que é moral ou imoral? Como
esses valores são construídos, ensinados e/ou transformados? Qual
foi o tipo de cultura moral que o ocidente priorizou e/ou utilizou nos últimos
séculos? O que prevalece hoje será uma moral racionalista, cristã, kantiana,
relativa ou uma ética que rejeita a razão absoluta?
PERÍODO
ÁNTIGO
Intelectualismo
socrático; Platão e Aristóteles seguem a mesma linha de pensamento, porém cada
um a seu modo de refletir sobre; onde o sujeito ético deveria seguir somente a
sua consciência, em busca do Bem e da Felicidade.
IDADE
MÉDIA
Na
Idade Média, seu objeto modifica pela perspectiva do advento do movimento
cristão, ou seja, o Cristianismo. Agostinho
de Hipona utiliza-se da filosofia platônica para fundamentar seus conceitos de
elevação até Deus, ou seja, o amor. Tomás
de Aquino utiliza-se da filosofia aristotélica para afirmar o conceito de que
Deus é o fim supremo para alcançar a felicidade;
O
cristianismo fundamenta o livre arbítrio, porém divide o bem (Deus) e o mal
(demônio), onde o caminho para a ética são os desígnios de Deus por meio da lei
divina revelada. Em
seguida o cristianismo introduz a ideia de moral, como “dever”, onde o sujeito
deve cumprir a lei de Deus e cumpri-la sem exitar em nada a ordem desta
entidade. É um ato de dever.
MODERNA
E CONTEMPORÂNEA
Rousseau
diz que, o homem é puro e bom, e que esta essência é inata a cada sujeito. O
mesmo se corrompe com o tempo em uma sociedade perplexa somente nas mazelas da
vida.
Em
Kant a ética é “razão prática”, com o objetivo de normas e fins éticos. O
“dever” não é uma imposição externa, mas sim, uma imposição interna; uma lei
moral que existe em nós mesmos. Obedecer a esse dever é obedecer a si mesmo.
Para Kant o homem deve agir em respeito ao dever e obedecer sempre a sua
consciência. É o imperativo categórico, uma lei moral interior.
Posterior
a Kant, combatendo o formalismo e o universalismo e valorizando o homem
concreto, social e histórico em uma sociedade contraditória e dividida em
classes, encontra-se Marx que afirma que a moral cumpre um papel social e que
numa mesma sociedade podem existir diversas concepções morais; com isso a moral
não é absoluta, podendo ser relativa.
A
ética contemporânea questiona o racionalismo e vem reconhecendo a parte
irracional e inconsciente dos comportamentos de cada indivíduo ou em
comunidade. A
historiografia filosófica considera o começo da filosofia grega a partir de
Sócrates e pensa a anterior como momento preparatório. Nietzsche refutou
o racionalismo ético socrático: para ele a filosofia é a pré-socrática. A
alegria do devir é própria desses filósofos. Nietzsche aponta para a
importância da emoção, do desejo e da vontade como fundamento para a edificação
de uma nova moral, ou seja, a transvaloração dos valores existentes.
No
primeiro tratado “Bem e Mal” – “Bom e Mau” de Genealogia da moral, Nietzsche
tratou de uma verificação genealógica dos valores, tendo como objeto de
pesquisa os jogos de força entre o forte e o fraco, entre o aristocrata e o
escravo.
“A
rebelião dos escravos na moral começa com o fato que o próprio ressentimento se
torna criador e gera valores; o ressentimento desses seres, aos quais a
verdadeira reação, aquela da ação, é interdita e que não se contenta senão com
uma vingança imaginária. Enquanto toda a moral aristocrática nasce de uma
triunfante afirmação de si mesma, a moral dos escravos opõe a um “não” a tudo o
que não é seu, a um de outro modo, a um não ele mesmo; esse “não” é seu ato
criador.” (10, p. 40, Genealogia da moral).
Dentro
deste arcabouço e miscelâneas de conceitos filosóficos, a instituição escolar
adentra neste campo emblemático e problemático em que o horizonte estrito que
perpassa a educação encontra-se o processo educativo com muitas influências
morais racionalistas, embasadas na perspectiva cristã e kantiana, pautando
somente a razão como controladora.
Com
o fim do monopólio da Igreja cristã sobre a educação em meados do século XVIII,
aparece o movimento iluminista com a “garantia” de uma libertação do sujeito
através das luzes, retirando o homem das trevas. Mas a educação hoje no
século XXI ainda não se libertou totalmente dos valores cristãos utilizados e
implantados pelas instituições educativas. Exemplo: O educador/professor
é colocado como um sacerdote da educação, que poderá mudar o rumo da vida dos
estudantes. Onde entra a pergunta: é possível mudar o curso da vida dos
estudantes? O educador/professor é um deus, e/ou um sacerdote da educação?
O
educador/professor deve ser facilitador/intermediador de idéias e
possibilidades diante dos estudantes como construtor de conceitos de
transformação educacional para elencar e levar a cada sujeito a transvalorar os
valores existenciais e inquietantes na luta interior.
Os
pilares do processo educacional é o trabalho das concepções morais. Observada a
moral em uma perspectiva de controle e/ou autocontrole externo e/ou interno,
como hábitos inseridos para um bom convívio entre todos e para todos, ela
também pode ser pensada a partir e com Nietzsche de uma moral sendo uma mentira
forjada para criar formas de subjugar o outro, de domesticar, adestrar,
controlar, para enganar a si mesmo, negando-se os desejos, as emoções e as
paixões.
Nietzsche
fala do superanimal:
“A
fera em nós precisa ser enganada; a moral é uma mentira forjada, para que não
sejamos dilacerados por ela. Sem os erros que se encontra nos dados da moral, o
homem teria permanecido animal. Assim, porém, se tornou por algo superior e se
impôs leis mais severas. É por isso que odeia os segmentos que permaneceram
mais próximos da animalidade: é por essa razão que precisa explicar o antigo
desprezo pelo escravo, um ainda não-homem, uma coisa.” (40, p. 68, Humano,
demasiado humano).
Pensar
os valores a partir de Nietzsche, remete a uma reflexão de uma ética para a
educação como possibilidade profunda no processo educacional. Na analise aqui
abordada sobre a racionalidade ética, ela trás um distanciamento entre a escola
e o estudante.
Primeiro,
pela determinação de regras e normas impostas pela escola para com o estudante,
aonde os mesmos devem internalizar comportamentos padronizados; Segundo,
estes mecanismos retiram do estudante o prazer de estar na escola, e o mesmo
tem que a todo o instante precarizar, anular os seus desejos, emoções e
paixões.
A
crítica nietzschiana quanto a este tipo de educação, observadamente pautada em
uma racionalidade em que o dever esta acima de tudo e de todos serviu para
reprimir e não para garantir o exercício da liberdade, como aquilo que era
espontâneo e natural nos indivíduos tornando-se vício e falta.
Nietzsche
deixa uma constatação na obra Além do bem e do mal quanto aos desejos:
“Amamos,
em definitivo, somente nossos desejos e não aquilo a que nós desejamos.” (175,
p. 94, Além do bem e do mal).
TRANSFORMAÇÃO
E EDUCAÇÃO
A
história de uma sociedade enraizada através deste modelo de moral não é
incomum, ela simboliza o processo de educação em que o principio controlador inibe
o poder de criação e imaginação de cada um dos sujeitos.
Nietzsche
traz uma abordagem em que este modelo implementado no processo educacional
edifica uma moral com o sentimento de ressentimento, fundamentada no medo e no
ódio. Este mesmo ser pode não desenvolver o esperado pelos educadores,
pela sociedade e pelo Estado, porque a ineficácia no processo educacional pode
trazer transtornos e ressentimentos memoráveis em cada sujeito engendrado nesta
proposta elencada. Nietzsche
trata dos ideais ascéticos (sacerdotes), sujeitos ressentidos por sua fraqueza
de espírito; eles idealizam uma vontade doentia de representar superioridade
sobre o outro, seus desejos de descobrir a forma que leva a dominação; não
aceitação em confessar o ódio como ódio, tentam representar isso como justo,
prudente, amistoso, ou seja, uma ambição de seres “inferiores”. (14, Genealogia
da moral).
Na
possibilidade do sujeito tentar contar com a sorte, depositar suas forças no
outro, ou pensar por si só como uma ponte e não como um pensar
futurista, ou seja, como meta a ser buscada, alcançada para se
prospectar uma vida; o próprio sujeito relata e engendra em outra
característica existencial no aqui e agora uma passagem do não-ser ao ser, ou
seja, do vir-a-ser que é o próprio devir heráclitiano, nesta
perspectiva ele é sua própria ponte, ele é sua própria passagem e, construindo
suas pontes existenciais para a completude de sua vida, como
auto-superação. Nietzsche em seu Zaratustra, através do
funâmbulo na corda bamba: a cada passo ele usa o próprio desequilíbrio para se
reequilibrar, ou seja, ele se restabelece pelo seu próprio desequilíbrio
chegando ao equilíbrio, e se esse funâmbulo for interrompido, ele cairá. O
próprio ser é para Nietzsche o senhor de sua autoconstrução e nesta luta entre
medida e desmedida instintiva o sujeito tenta superar-se a si mesmo através das
crenças educacionais,religiosas e morais.
“(...)
O homem é uma corda estendida entre o animal e o ubermensch. Uma
corda sobre o abismo. Perigosa para percorrê-la, é perigosa ir por esse
caminho, perigoso tremer e parar. O que é grande no homem é ele ser uma ponte e
não uma meta. (...)”. (Prólogo IV, p. 24, Assim falava Zaratustra, 2008).
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Na
visão nietzschiana a educação não somente é um processo de criação, mas de
libertação aonde a transformação do sujeito pressupõe a formação educacional. A
transformação do ser é anterior a uma construção educativa, pois o sujeito
somente pode ser um ser em transformação pelo próprio processo de transformação
individual, ou seja, uma auto-superação como auto-afirmação da vida.
A
educação pensada através de Nietzsche é uma formação existencial do aqui e
agora, uma transformação no ser que já se é, e que a transvaloração diante de
todas as possibilidades existentes tende a superar a si mesmo, dentro do
ambiente ao qual vivência a sua construção ideológica. A crítica
nietzschiana não promete nenhuma mudança, mas uma analise dos valores
existentes e aponta-os:
“A
última coisa que eu pretenderia seria “melhorar” a humanidade. Não estabeleço
ídolos novos; os antigos vão aprender o que significa ter pés de barro.
Derrubar ídolos (ideais) isso sim faz parte de meu ofício.” (Prólogo 2, p.16,
Ecce homo).
REFERÊNCIAS
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NIETZSCHE.
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F. Aurora. São Paulo: Escala 2008. 2ª edição.
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F. Ecce Homo. São Paulo: Escala 2009. 2ª edição.
REALI.
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F. Humano, demasiado humano. São Paulo: Escala 2008. 2ª edição.
ROUSSEAU.
J. J. O contrato social. São Paulo: Hunter 2014. 1ª edição.
KANT.
I. A metafísica dos costumes. São Paulo: Edipro 2008. 2ª edição
FEITOSA.
C; BARRENECHEA. M.A; PINHEIRO. P. Nietzsche e os gregos: arte, memória e
educação. Rio de Janeiro: DP&A 2006. 1ªedição.
JUNIOR.
O. G. Nietzsche X Kant, Uma disputa permanente a respeito da liberdade,
autonomia e dever. São Paulo. Casa do Saber. 2012, 1ª edição.
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